Opinião Crônica
CARNAVAL: O PITO DA PANELA DE PRESSÃO SOCIAL.
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07/03/2025 09h07 Atualizada há 6 meses
Por: Redação Fonte: Jeu Almeida
Redação

 

Depois que você acaba de fazer novos planos para um novo ano, os velhos problemas mandam aquele “oi, sumida”: boletos infinitos, inflação pocando, volta às aulas temporada 9 – o pesadelo recomeça. No noticiário, o sangue escorre pela TV, o Uber tocando louvor no talo pra Jesus ouvir lá de cima. Você tá no limite, mas o caos de sempre dá uma pausa pra um caos mais ritmado, suado e bem mais divertido. “Já é Carnaval, cidade.” Mas, e se não fosse?

Meu mais velho, agora com 20 anos, procurando emprego e já se embolando com os perrengues da vida adulta, chegou pra mim e disse:
— Agora eu entendo esse lance do pão e circo.

Ele não foi pular o Carnaval; os streamings e o Valorant online, seja lá o que isso signifique, prenderam ele em casa remoendo a questão romana “panem et circenses”. Acredito que um dia ele também vai afogar as frustrações da vida num dia de Carnaval, provavelmente em latas de cerveja quente e algumas bocas, como um bom brasileiro, mas, por enquanto, ele me fez pensar no assunto.

Sem o Galo da Madrugada em Recife, sem os bailinhos de Olinda, sem desfile no sambódromo do Rio, sem aquilo que os paulistas fazem que chamam de Carnaval, sem Ivete dando a ordem de “puxa o trio, motor”, o Brasil ia sobreviver? Acho que sim, mas seria um país bem diferente do que é hoje. Uma nação onde o povo leva esculacho o ano todo sem uma válvula de escape? Revolta popular instantânea. Despeje em 1 litro de mágoa e sirva para 211 milhões.

O Carnaval é o regulador natural da paciência do brasileiro. É o pito da panela de pressão social. Sem ele, a tampa do Brasil ia voar longe. Não é por acaso que, às vésperas da folia, o Senado liberou a escala de trabalho 4x3 para servidores. “Sabe de quem?”... do Senado. Todo ano, neste período, alguma decisão política polêmica passa sem ninguém notar. O povo tá ocupado demais tentando adivinhar qual vai ser a música do carnaval, se dessa vez vai dar Leo Santana. Aí você me pergunta: - Qual foi a lei marota que passou ano passado? Sei lá! Provavelmente eu tava atrás de Timbalada, todo pintado de Kolynos.

Minha única certeza é que, se o Carnaval acabasse antes de começar e a corda do Chiclete se unisse à escola de samba da Gaviões da Fiel, com a pipoca do Canário de mãos dadas com as senhorinhas do Bloco das Flores, marchando ao som de Baiana System pra mudar o país, eu não queria estar no Governo neste momento. Talvez a Quarta-feira de Cinzas fosse mais literal do que a gente imagina.