Uma ligação inesperada, uma ida sem roteiro e um encontro com a arte urbana. Foi assim que nasceu a fotografia que levou o fotógrafo e cineasta feirense Arivaldo Publio dos Santos, conhecido como Ari Publio, a um reconhecimento internacional.
A imagem “Graffiti e Transformação” recebeu um Reconhecimento Especial no concurso “The Shape of a Moment”, promovido pela Exposure Photo Gallery, instituição internacional dedicada à fotografia artística, com atuação nos Estados Unidos e na Argentina e sede administrativa em Nova York.
Mais do que o certificado ou a posição alcançada em uma competição internacional, Ari vê o reconhecimento como uma confirmação de uma trajetória construída ao longo de quase 14 anos entre a fotografia e o audiovisual - e, principalmente, como um ponto de partida para uma nova etapa profissional.
“Este não é o ponto de chegada, não é o prêmio, não é o pódio, e sim o início. Fico muito feliz com esse reconhecimento, porque acredito que ele não premia apenas a fotografia, mas também quase 14 anos de dedicação à fotografia e ao audiovisual. Ele chega em um momento muito importante, de transição na minha carreira, em que estou deixando o mercado publicitário para me dedicar mais à produção documental e artística. Para mim, é uma motivação e, principalmente, uma reafirmação das escolhas que venho fazendo desde que comecei minha trajetória na fotografia”, afirma o fotógrafo.
A premiação reuniu trabalhos de fotógrafos de diferentes partes do mundo. Segundo a organização, as imagens contempladas com o Reconhecimento Especial integram aproximadamente os 7,5% melhores trabalhos inscritos na competição e passam a fazer parte da galeria online da instituição.
Para Arivaldo, porém, um dado específico da participação tem um significado ainda maior: das 12 fotografias que inscreveu, oito foram selecionadas para as etapas do concurso.
“Não é que teve uma que foi premiada. Foram oito de 12. Para uma pessoa que vem de Feira de Santana, que não tem uma formação técnica e não tem uma oferta tão grande de cursos, acho que isso rompe muitas barreiras”, destaca.
Uma fotografia que nasceu do acaso
A história da imagem premiada começa longe de um estúdio, de um edital ou de uma pauta previamente planejada. Arivaldo estava em casa quando recebeu a ligação de um amigo. O convite era para ir até uma comunidade no Alto do Coqueirinho, na periferia de Salvador, em Itapuã, onde havia uma intervenção de graffiti.
Não havia cachê. Não havia contrato. Não havia roteiro. Foi justamente essa decisão que, para ele, está no centro da fotografia premiada.
“Eu só fui. Não tinha objetivo comercial, não tinha cachê”, lembra.
A obra registra meninas diante de um graffiti que retrata uma delas, como se estivessem diante de um espelho, com uma faixa presidencial. A cena estabelece um diálogo entre as personagens e a pintura, criando uma imagem sobre identidade, sonho, representação e transformação.

A fotografia acabou ganhando novos significados. Além de conquistar o reconhecimento internacional, a imagem foi utilizada como capa de um documentário produzido por Arivaldo sobre graffiti. O filme, segundo o fotógrafo, também teve boa recepção no circuito ligado à arte urbana e possui potencial para circular em outros países.
“Essa foto foi capa do documentário sobre o graffiti que eu lancei também. Então, a foto foi premiada e também foi capa de um documentário”, conta. Para Arivaldo, a trajetória da imagem reforça uma característica fundamental do seu trabalho: estar presente.
“Eu acho que a fotografia premia a iniciativa. É o que eu acho mais incrível, porque eu lembro da ligação. Eu lembro de falar assim: ‘Não, eu vou’. A ida, para mim, foi super importante”, recorda.
Do interior da Bahia para uma competição mundial
Nascido e criado em Feira de Santana, ele considera que participar de uma competição mundial já representa, por si só, uma quebra de barreiras. Para ele, essa trajetória envolve obstáculos relacionados ao acesso a equipamentos, à formação e às oportunidades profissionais.
“Quando a gente parte de uma cidade do interior da Bahia, que é do Nordeste, a gente vai pelas camadas: acesso ao equipamento, acesso à educação, ao sentido da fotografia, já que ainda não é uma profissão tão consolidada”, afirma.
A seleção de oito das 12 imagens inscritas, portanto, adquiriu um significado que ultrapassa a fotografia vencedora. Para o artista, o resultado demonstra a possibilidade de uma produção desenvolvida fora dos grandes centros também alcançar circuitos internacionais.
Quase 14 anos construindo um olhar
Arivaldo Publio tem 35 anos e atua há mais de uma década na fotografia e no audiovisual. Seu primeiro contato mais intenso com a fotografia aconteceu durante a graduação em Comunicação Social, com ênfase em Publicidade e Propaganda. Posteriormente, formou-se em Cinefotografia e Operação de Câmera pela Escola Baiana de Cinema (EBACINE).
Ao longo da carreira, trabalhou em diferentes frentes da produção audiovisual, passando pela fotografia, cinegrafia, edição e produção de conteúdo.
Também atua na formação de novos profissionais. É professor de Produção Audiovisual no Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e ministra aulas de edição de vídeo no curso de Produção de Roteiro e Vídeo do IFBA, campus Santo Antônio de Jesus.
Em 2015, fundou a Ser Tão Filmes, produtora voltada principalmente para projetos culturais, documentais e audiovisuais. Entre os trabalhos desenvolvidos ao longo dos anos estão registros de manifestações culturais e projetos ligados à memória e à identidade baiana, além da cobertura de importantes eventos de arte urbana.
Um dos trabalhos de maior continuidade é o acompanhamento do Bahia de Todas as Cores (BTC), considerado um dos principais festivais de arte urbana do Nordeste. Ari também registra há anos o Meeting of Favela (MOF), no Rio de Janeiro, um dos eventos de referência internacional na cena do graffiti.


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